Implantes Auditivos: Novidades do III Simpósio e Workshop em Hannover

Implantes Auditivos: Novidades do III Simpósio e Workshop em Hannover

implantes auditivos

Implantes Auditivos: Acabo de retornar do III Simpósio e Workshop de Implantes auditivos de Hannover, na Alemanha. O simpósio foi realizado no International Neuroscience Institute, um renomado instituto de tratamento e pesquisas em neurociência, dirigido pelo Dr. Thomas Lenarz, chefe do serviço de otorrino da Universidade de Hannover. O simpósio foi muito interessante, com apresentação das mais atuais tecnologias em implantes auditivos, cirurgias ao vivo, treinamento prático em laboratório com peças anatômicas e apresentação dos estudos em desenvolvimento pela equipe de Hannover e demais equipes alemãs. Tentarei descrever aqui, de uma forma bastante simplificada, os principais temas abordados em relação ao futuro dos implantes cocleares e demais implantes auditivos.

Quando se pensa em futuro, é natural pensarmos em células tronco. A mídia em geral noticiou durante muito tempo as células tronco como sendo a promessa de cura para diversas doenças e condições incuráveis hoje. Mas o que são células tronco? Células tronco são células que possuem a capacidade de se transformar em outras células. São células precursoras, como se fossem “células bebês” que poderão escolher o que querem ser quando crescer. Podem se transformar em células musculares, células de órgãos e células neurais. Existem diversos tipos de células tronco com propriedades diferentes. Os estudos apresentados neste Simpósio foram feitos usando células tronco de medula óssea.

Pode-se pensar assim: se células tronco se transformam em outras células e, se muitos casos de surdez ocorrem pela morte das células ciliadas da cóclea, não seria possível injetar células tronco dentro da cóclea e elas se transformarem em novas células ciliadas, curando a surdez? Teoricamente sim e muitos estudos neste sentido, em animais, têm sido realizados já há alguns anos. Os cientistas têm encontrado alguma dificuldade em sinalizar para as células tronco no que elas têm que se transformar após entrarem na cóclea.

Os estudos apresentados no Simpósio nos mostram que, mesmo sem gerar outras células ciliadas dentro da cóclea, o uso de células tronco durante a cirurgia de implante coclear pode ser benéfico, pois a presença das células tronco dentro da cóclea pode produzir a liberação de substâncias que protegem as células neurais da cóclea ainda existentes. As células tronco sozinhas ainda não têm se mostrado eficazes, mas em conjunto com o implante coclear podem proteger as células remanescentes de dentro da cóclea e proporcionar um melhor resultado final com o implante. Outra substância, chamada “plasma rico em plaquetas”, que é mais fácil de conseguir do que as células tronco, parece que também tem um efeito parecido. É uma área muito promissora de pesquisa, que deve nos trazer mais novidades em breve.

Outro campo muito interessante e promissor é o que chamamos de “intracochlear drug delivery” ou administração de medicamentos dentro da cóclea. Essa área também vem se desenvolvendo há alguns anos e muitas medicações já foram tentadas, com resultados variáveis. As medicações mais utilizadas nos estudos são os corticoides.

A teoria por trás do uso intracoclear de corticoides é a seguinte: sempre que fazemos implantes cocleares, temos que tomar muito cuidado com para não machucar as células e estruturas que ainda estão vivas dentro da cóclea. Diversos estudos nos mostraram que o uso de eletrodos mais delicados e flexíveis e uma inserção do eletrodo dentro da cóclea de forma lenta e delicada preserva melhor as estruturas de dentro da cóclea e resultam em melhor função auditiva no pós-operatório. As empresas de implante coclear têm investido muito em desenvolver eletrodos mais delicados e menos traumáticos e, nós cirurgiões, temos nos especializados em cirurgias cada vez mais delicadas. Qual o problema de um eletrodo grande e mal inserido? Ele machuca a cóclea e causa processo inflamatório dentro dela. Processo inflamatório leva a morte celular dentro da cóclea. Ora, se processo inflamatório dentro da cóclea é problema, por que não utilizar medicações anti-inflamatórias dentro da cóclea durante a inserção do eletrodo (e se possível por algumas semanas após a inserção do eletrodo)? Daí iniciamos os estudos com corticoides, que são medicações extremamente anti-inflamatórias seguras e de fácil utilização.

celulas tronco

Os estudos mostrados no Simpósio sugerem realmente um efeito protetor da cóclea pelos corticoides, principalmente o uso de dexametasona. Nossa equipe aqui em Campinas já utiliza dexametasona durante a cirurgia de implante coclear há algum tempo.

Outro avanço interessante em relação ao tema “drug delivery” é um instrumento que os alemães desenvolveram para injetar os medicamentos dentro da cóclea. Alguns estudos mostram que a simples injeção através da janela da cóclea, por onde inserimos o eletrodo, não espalha a medicação por toda a cóclea. A medicação tende a ficar mais na parte de baixo da cóclea e leva muito tempo para se difundir até o ápice da cóclea. Com esse novo dispositivo apresentado, logo poderemos infiltrar medicações dentro da cóclea de uma forma mais eficiente.

Outro estudo interessante apresentado foi o do uso de neurotrofinas nos eletrodos de implante coclear. Neurotrofinas são substâncias que fazem os nervos crescerem. Se você coloca um neurônio exposto a neurotrofinas, ele tende a crescer os seus dentritos e fazer mais conexões com o ambiente. O uso de neurotrofinas nos eletrodos pode fazer com que os neurônios remanescentes dentro da cóclea que está sendo implantada cresçam em direção ao eletrodo. Desta forma, poderíamos ter um estímulo mais preciso dos eletrodos, possibilidade de feixe de eletrodos com mais contatos elétricos (audição melhor) e menor consumo de bateria. Esses estudos ainda estão em uma faze bastante inicial, mas são promissores.

Também foram apresentadas novidades em relação aos exames de imagem. Novas e asi avançadas tomografias e ressonâncias magnéticas conseguem nos mostrar a anatomia dentro da cóclea e avaliar com bastante precisão o tamanho dos túneis dentro da cóclea. Desta forma, logo será possível que desenvolvamos eletrodos sobre medida para os pacientes. O ideal é um eletrodo grande o bastante para cobrir o máximo da cóclea sem lesar os túneis dentro dela.

Todo esse desenvolvimento no sentido de preservar audição residual dos pacientes e melhorar os resultados auditivos têm feito com que os alemães tenham implantado pacientes com cada vez mais resto auditivo. A indicação de implante coclear está crescendo bastante com o aumento da eficácia e da segurança do método.

Na área de diagnóstico de surdez, o que realmente está mais se desenvolvendo são os testes genéticos. Já temos screenings genéticos muito interessantes disponíveis. Um estudo japonês apresentado mostrou o grande potencial que estes testes têm. A ideia é que a criança já saia da maternidade com o diagnóstico auditivo e também os testes genéticos já feitos.

No campo dos outros implantes auditivos, o implante Vibrant Soundbridge agora conta com novos acessórios cirúrgicos que facilitam a cirurgia e a deixa mais segura. Em relação aos implantes de vibração óssea, o AdHear realmente parece ser bastante interessante. Trata-se de um aparelho auditivo de vibração óssea, assim como o BoneBridge, BAHA e PONTO, mas que não precisa ser implantado. Ele trabalha com um adesivo colado atrás da orelha onde o aparelho se acopla. Devemos ter esse aparelho disponível no Brasil ainda este ano e os estudos comprovam sua eficácia.

Iniciamos também estudos sobre implantes vestibulares, ou seja, implantes no labirinto. Isso seve para aqueles casos de surdez profunda que estão associados a tonturas importantes também. É para uma minoria dos casos. Trata-se de um implante coclear que também têm um implante de labirinto junto. Dessa forma, ele reabilita a audição e o equilíbrio dos pacientes com problemas nos dois órgãos. Apesar de ter uma indicação bastante restrita, esses implantes poderão ajudar muita gente.

Realmente a Alemanha é um país extraordinário, com muita tecnologia e avanços científicos. Fico muito empolgado com o futuro da otologia. Hoje já temos alternativas de tratamento praticamente para todos os tipos de surdez. Logo teremos alternativas ainda melhores.

Dr. Henrique Gobbo
CRM – 117688 SP